Do wellness ao set-jetting: novas tendências mostram que viajar é cada vez mais sobre viver experiências

Escolher um destino já foi a primeira grande pergunta de quem começava a planejar as férias. Praia ou montanha? Brasil ou exterior? Descanso ou aventura? Essas questões continuam existindo, mas o comportamento do viajante está mudando. Cada vez mais, antes de decidir para onde ir, ele começa a pensar o que deseja sentir, viver e experimentar durante a viagem. 

Essa mudança ajuda a explicar a multiplicação de tendências que vêm movimentando o turismo. Wellness, quietcations, set-jetting, bleisure, turismo regenerativo, viagens nostálgicas e até roteiros motivados pelo universo da beleza são alguns dos termos que passaram a fazer parte do vocabulário do setor. 

Apesar dos nomes novos, existe algo em comum entre muitos desses movimentos: a busca por experiências mais personalizadas, autênticas e conectadas aos interesses de cada viajante. 

Levantamentos do setor confirmam essa transformação. O Travel Trends 2026, apresentado pelo Skyscanner, aponta que 58% dos brasileiros entrevistados planejavam viajar mais ao exterior em 2026 do que no ano anterior. Mesmo diante do aumento do custo de vida, conforto, gastronomia e atividades locais aparecem entre as prioridades de investimento dos viajantes. 

Viajar para descansar (de verdade
Uma das tendências mais fortes está relacionada ao bem-estar. O chamado Turismo de Bem-Estar, ou Wellness Tourism, transforma o cuidado pessoal em parte central da viagem. 

Spas, retiros, yoga, meditação, alimentação saudável, contato com a natureza e experiências voltadas ao equilíbrio físico e emocional passam a ser protagonistas do roteiro, e não apenas atividades complementares. 

Dentro desse movimento surgiram conceitos como as calmations, férias planejadas especificamente para desacelerar. Serras, pequenas cidades, propriedades rurais, ilhas e praias menos movimentadas passam a competir com os destinos tradicionalmente disputados. 

Na mesma direção estão as quietcations, ou “férias silenciosas”. Aqui, silêncio, tranquilidade, contemplação e desconexão tornam-se parte da experiência. A ideia é justamente escapar do excesso de estímulos da rotina e, muitas vezes, também das multidões. 

Turismo regenerativo: não basta reduzir impactos 

Se durante muitos anos o debate esteve concentrado no turismo sustentável, um novo conceito vem ampliando essa discussão: o Turismo Regenerativo. 

A proposta vai além de reduzir os impactos negativos provocados pela atividade turística. O objetivo é fazer com que a presença do visitante possa contribuir positivamente com o lugar, fortalecendo comunidades, valorizando culturas, estimulando economias locais e colaborando com a conservação e recuperação ambiental. 

Isso pode acontecer por meio da escolha de hospedagens comprometidas com o território, experiências conduzidas por comunidades locais, consumo de produtos de pequenos produtores e artesãos, iniciativas de conservação ou atividades que promovam uma relação mais responsável entre visitante e destino. 

Para além de visitar um lugar, a proposta é compreender que o turista também passa a fazer parte daquele ecossistema durante sua permanência. 

A gastronomia como memória de um destino 
Outra tendência que ganha força é a Gastronomia Afetiva. O viajante quer descobrir receitas tradicionais, ingredientes regionais, mercados, pequenos produtores e histórias transmitidas entre gerações. 

A comida passa a funcionar como uma porta de entrada para compreender a identidade de uma cidade ou região. 

O interesse não é pequeno. Pesquisa divulgada pelo Ministério do Turismo mostrou que 39% dos brasileiros que planejavam férias no verão 2024/2025 buscavam experiências gastronômicas durante as viagens. 

Assim, visitar uma feira, conhecer um produtor, participar de uma aula de culinária, experimentar uma receita familiar ou sentar-se à mesa de um pequeno restaurante tradicional pode ser tão marcante quanto conhecer um grande cartão-postal. 

Glowmads: quando a beleza também define o roteiro 

Uma tendência particularmente curiosa mostra até onde pode chegar a personalização das viagens. Os chamados glowmads são viajantes que incorporam ao roteiro experiências relacionadas à beleza, aos cuidados pessoais e ao skincare

O fenômeno ganha força especialmente em destinos que construíram forte identidade nesse universo, como a Coreia do Sul. Clínicas, tratamentos, lojas especializadas, produtos regionais e rituais de beleza passam a integrar a programação turística. 

O que antes poderia ser apenas uma compra durante a viagem torna-se uma das razões para escolher o destino.  

Voltar no tempo também virou tendência 
Se parte dos turistas procura novidades, outra parcela quer reencontrar sensações conhecidas. As viagens nostálgicas transformam lembranças em inspiração para novos roteiros.  

Experiências ligadas às décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000, parques visitados na infância, destinos de antigas viagens familiares, hotéis históricos e atrações retrô despertam interesse de viajantes que querem revisitar momentos ou apresentá-los às novas gerações. 

A nostalgia também aparece nas viagens multigeracionais, reunindo avós, filhos e netos em experiências capazes de conectar diferentes memórias e fases da vida. 

Set-jetting: da tela para o próximo destino 
Assistir a uma série e começar a pesquisar passagens para aquele lugar deixou de ser uma exceção. O set-jetting é o turismo motivado por destinos apresentados em filmes, séries e outras produções audiovisuais.  

A tendência se consolidou de tal maneira que dados divulgados em 2026 pela Expedia mostram que 53% dos viajantes pesquisados afirmam que aquilo que assistem nas telas influencia seus planos de viagem. 

Cenários cinematográficos, hotéis utilizados em produções, castelos, praias, ruas, cafés e paisagens passam a integrar roteiros turísticos. 

Mas transformar a ficção em uma boa experiência real exige planejamento. Nem sempre o cenário visto na tela está exatamente onde a história diz estar. Algumas locações ficam distantes umas das outras, têm acesso limitado ou funcionam em determinados períodos. 

É justamente nesse ponto que o conhecimento profissional consegue transformar a inspiração do viajante em um roteiro possível. 

Trabalhar e aproveitar: a lógica do bleisure 
As mudanças nas relações profissionais também chegaram ao turismo. O bleisure, união das palavras business e leisure, representa a combinação entre compromissos profissionais e lazer em uma mesma viagem. 

Uma pessoa viaja para participar de um congresso, feira ou reunião e prolonga a estadia por alguns dias. Ou organiza sua rotina de trabalho remoto de maneira que possa conhecer o destino nos períodos livres. 

O desafio é fazer essa combinação funcionar: localização da hospedagem, internet adequada, deslocamentos, horários, extensão de passagens, bagagens e atividades compatíveis com a agenda profissional precisam conversar entre si. 

Quando bem planejado, o que seria apenas uma viagem de negócios pode se transformar em uma experiência muito mais completa. 

Shows, esportes, literatura e cultura  
O calendário também se tornou uma ferramenta para escolher destinos.  Grandes shows, festivais de música, exposições, feiras, competições esportivas e eventos culturais vêm motivando viagens nacionais e internacionais.  

Há ainda os roteiros literários, que levam leitores aos lugares relacionados à vida de escritores ou às histórias de seus livros. 

Neste tipo de viagem, planejamento antecipado é ainda mais importante. Um grande evento altera disponibilidade e preços de hotéis, passagens, transfers e outros serviços turísticos. Além disso, ingressos, regras de acesso, deslocamentos e localização da hospedagem podem determinar boa parte da experiência. 

Tendência boa é aquela que combina com o viajante 

Com tantas possibilidades, talvez a principal tendência do turismo contemporâneo seja justamente esta: não existe uma única maneira de viajar. Duas pessoas podem visitar exatamente o mesmo destino e viver experiências completamente diferentes. 

É por isso que a tecnologia, embora tenha ampliado extraordinariamente o acesso às informações, não elimina a importância do profissional. Pelo contrário: quanto maior o volume de possibilidades disponíveis, maior pode ser a necessidade de alguém capaz de selecionar, comparar, organizar e transformar informação em uma viagem coerente. 

O profissional de turismo consegue compreender o perfil do viajante, orçamento, tempo disponível, documentação, logística, hospedagem, deslocamentos, seguros, fornecedores e particularidades do destino para construir uma experiência que faça sentido como um todo. 

Na Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), essa valorização está no centro da atuação da entidade. A Associação trabalha pela representação, fortalecimento e capacitação dos profissionais do setor, estimulando a atualização constante diante das transformações do mercado. 

Conhecer tendências também faz parte desse processo. Mais do que saber que existe uma quietcation, um roteiro de set-jetting ou uma experiência regenerativa, o bom profissional precisa entender para quem aquela viagem faz sentido, quando realizá-la e como transformá-la em uma experiência segura, organizada e completa. 

Tendências mudam. Novos destinos aparecem. A tecnologia evolui. Mas uma boa viagem continua começando da mesma maneira: entendendo quem vai viajar. 

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